domingo, 22 de março de 2015

Sobre perdas e as últimas horas - Uma carta com dor e amor.

Você se foi as 18:45. Foi tudo tão rápido, como um sopro, ou um respiro. Os médicos disseram tudo com palavras suaves e dando voltas. Nesse momento eu entendi o quanto a vida é efêmera, e como estou vivendo um processo de perdas em série.
Perdi namorado, perdi trabalho e agora perdi você. Você, minha tia querida, que fez parte da minha vida, que me ensinou coisas maravilhosas sobre os livros, sobre etiqueta, sobre cultura, sobre artes e sobre a vida. Me ensinou com conselhos e com seu exemplo, sua vivência nos últimos tempos, quando estava sendo rapidamente vencida pelo relógio do final da vida. Quando recebi a notícia de que tinha apenas algumas horas mais, me senti como numa "expectativa do horror", pois é uma espera que não passa. Cada minuto vira uma eternidade e esse tempo vai nos consumindo até os ossos.
Nessas horas, desde sábado a noite, fiquei lembrando de mil coisas. Momentos de minha vida, momentos com você, promessas que me fizeram e não foram cumpridas, momentos com outras pessoas que já passaram e hoje simplesmente não fazem mais parte da minha história. Isso tudo me fez chorar mas ao mesmo tempo só me faz entender mais e mais coisas, uma avalanche de conclusões numa montanha russa de sentimentos, altos e baixos.
Eu errei, acertei e acima de tudo fiz tudo que achava e tinha capacidade de fazer em cada momento. Fiquei lembrando de quando outrem me dizia que estaria comigo quando isso acontecesse, e ai olhei para o lado no tempo presente e vi que não havia ninguém parecido com você ali. Isso me fez ver como nada na vida é para sempre e que não devemos entregar nossos sentimentos e expectativas sobre o outro, pois certamente ele falhará conosco e com suas promessas em algum momento. Entreguei meu melhor, corpo e alma, e tive meu coração esmagado pelo fim de tudo que sonhei, numa noite após a discussão e a agressão mais esdruxúlas da minha vida. Percebi que talvez nada daquilo que foi dito por tanto tempo era verdade, me joguei numa vida que não era a minha com tudo o que eu tinha de mais puro em mim e me vi acordando no escuro e sozinha. Nosso caminho é cheio de surpresas, e algumas delas são pavorosas.
Teve também ainda mais uma pessoa, da qual entreguei algumas esperanças, devido a uma pureza de sentimentos, e também não foi o que esperei. Em você e no seu "amor juvenil" eu esperei encontrar acalanto, amor, amizade, carinho, e em troca te daria tudo o que um garoto poderia querer de um primeiro amor. Algumas falhas operacionais e eu te espremi de um lado, e você arrancou algumas pétalas de mim, de outro, e as jogou ao vento, se deixando levar pelo momento. Sei que se arrependeu, mas hoje entendi que não há volta e essa é a coisa mais certa, quando algo morre não deve haver volta.

Agora, estou aqui tentando aceitar que nunca mais verei ou ouvirei a voz de uma das pessoas mais especiais que tive o orgulho de ter em minha vida, pois ela se foi e agora está junto de Deus.
Tenho a consciência de que lutamos juntas, lado a lado, e passamos por todas as fases. Ambulância, hospital, cadeira de rodas, andador, muletas, fisioterapia, cabelo caindo, rádio, químio, cabelo crescendo, esquecimento, fraldas, seu silencio progressivo, hospital de novo, sua luta com a vida em cada respiração que significava um esforço tão grande, numa tentativa desesperada de existir até o último fio.
Eu vou sempre me lembrar de quando chamava minha avó de "Juju", e fazia um esforço tremendo para convencê-la a se maquiar para ir a missa de domingo. Ou quando me levava a casa de chá do CCBB e pedia o café completo com um quiche para você e geléia de laranja com waffles para mim. Quando tentou me ensinar a chamar o garçon quando eu tinha 5 anos, quando me escreveu diversos cartões em cada aniversário, quando me disse que eu deveria aproveitar o frescor da juvetude e dizia que eu ficava "uma gracinha" de all star e vestido pois "você é jovem e tudo fica bonito numa jovem com frescor". Quando me servia uma madelaine com chá e me dizia que eu tinha muito o que aprender na vida, quando me levou ao Theatro Municipal para assistir "Coppélia" (Um dos ballets mais bonitos que já assisti em toda minha vida), as diversas exposições e idas ao Estação Botafogo e ao Unibanco Arteplex.

Fiquei muito revoltada, pensando no porque estou passando por todas essas coisas ruins de uma vez só, e em tão pouco tempo, mas agora que cada uma delas acabaram eu entendi o porque. Na vida, temos que passar por coisas muito duras para crescermos, termos nossas cascas arrancadas e ai sim florescermos aos poucos.
Há 10 meses atrás eu era uma garota da zona sul que passou por momentos dificeis e trabalhou bastante, mas não conhecia mais algumas partes da vida. Hoje sou uma mulher que conhece várias pontas do Rio de Janeiro, aprendi e estou aprendendo na prática, coisas sobre ter uma casa, responsabilidades ainda mais profundas, dor, amor, prazer e morte.
Eu sou grata a tudo que vivi pois não deixei passar nenhuma oportunidade e não vou ter nenhum arrependimento do tipo "não fiz, como teria sido se eu tivesse feito?", estou combalida e devastada agora, se eu fosse um jardim estaria com minhas árvores derrubadas e flores mortas, mas sei que com o tempo e o carinho sincero de quem me considera e tem amizade por mim, esse jardim vai florescer novamente e eu irei encontrar junto de Deus novas formas de viver e ser genuinamente feliz.
Vou conseguir usar tudo que aprendi, passar por cima desses sentimentos pavorosos e ficar só com a saudade perene e as lembranças dos bons momentos, todos eles. E de você tia, sei que vou levar além de tudo isso sua alma perto de mim, sempre me protegendo e seu coração junto do meu, me abençoando.
Obrigada vida, por todas as lições. Obrigada pessoas que me decepcionaram, pois até com vocês tive ótimos momentos, decepções que me ensinaram a viver e muitas lições, e por último e para encerrar com muita honra, obrigada Maria Isabel Falcão, por ter sido essa mulher forte e independente que me deu carinho e coisas incríveis por toda sua existência. Só terei orgulho de ter sido sua sobrinha. Que a sua luz irradie por todos nós nessa noite de chuva que limpa nossas lágrimas e tristeza, e que prepara o céu em festa para que possa ser recebida por Deus e meu avô, Seu Edgard, de braços abertos e ambos, cheios de amor.

Eu vou te amar para sempre, e esse é um dos amores mais puros que a maldade do mundo nunca irá me tirar

Com carinho

Fabi

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